AnjosdeÓrion

Generalidades físico-poético-filosóficas

Amor, a morte e (in)finitude

Posted by Lilian Neves Mise em @2010

Amor, a morte e (in)finitude

em lembrança de todos os esquecidos

Não sei bem qual a origem do feriado de finados, mas toda tradição tem em seu costume venerar os antepassados. Na casa de meus avós paternos me lembro da casinha (Kamidana) onde se colocava alimentos para as divindades e também para os mortos. Para nós de uma cultura ocidental, racional, abstrata este ato parece infantil e quase ingênuo (não é óbvio que morto não come?) – mas hoje me pergunto, é possível a manutenção da memória sem ritos?

Certamente não acreditamos nisso, por isso temos livros, computadores e instrumentos de memória, nas quais confiamos – ritualmente – que estarão acessíveis em um futuro qualquer como um oráculo – dependendo de nosso desejo. Todos estes nos servem de substituto aos alimentos colocados na casinha dos deuses, às datas festivas; e refazem as tensões entre os mundos do visível e invisível. Nossa memória está preservada em frio silício, (i)mortalizada, controlada, invisível. Não há mais no calendário espaço para lágrima, a melancolia, a contradição do festival. Ao inverso da tradição que se submete ao passado, nós dominamos os ancestrais, ou pelo menos pretendemos.

Em outra tradição, desta vez na Tailândia, me lembro de aprender uma oração a ser feita antes de se fazer massagem. O instrutor orientou que aquela oração era um lembrete – não fui eu que inventei aquela técnica, é preciso saber valorizar toda esta tradição que me permitiu chegar naquele momento e poder realizar aquela ação, a oração não era para um mestre morto qualquer do passado, mas pelo que vive através dos tempos, dos transmissores, e que ali era recebido, e eu no meio daquela história entrava no fio que vivificava aquela sabedoria. Mesmo que no futuro eu resolvesse fazer diferente, era preciso saber com quem pude descobrir como me diferenciar, eis o sentido de reverencia que abarca a transgressão. O curador/cuidador não é o massagista, mas por meio dele, toda a tradição é responsável – pelo que vive e pelo que morre. Não sei se um médico aprende isso.

Esse fio, criado, artificial, que toda tradição insiste em preservar não busca refazer o passado, tal como a abertura de um documento na tela do computador nos mostra um texto do modo que ele foi abandonado a tempos atrás. É um mania humana de alimentar materialmente (por ações, interferências) seu vínculo com o que poderia ter sido, um amor por aqueles que desejaríamos vivamente conversar, um amor por aqueles que temos interesse em aprender juntos, um amor capaz de fazer ressuscitar os mortos e traze-los a compartilhar de nossa comida e de nossa fome, de nossa sabedoria e de nossa ignorância – com quem podemos responder nossas perguntas atuais, com quem podemos brigar e acusar de nossos invisíveis sofrimentos, trazendo à visibilidade.

Essa experiência confusa das tradições, portal de encontro em o visível e invisível, era o que talvez permitia aos que se submetiam ao ritual a experiência de uma temporalidade mais alargada, a experiência de uma infinitude. Hoje é costume dizer que os dias estão curtos, e passado o dia das crianças já estamos programando as viagens de fim de ano, aconteceu algo com o tempo? O feriado é a rotina programada de escapar da rotina. Todo feriado “não-comemoramos” o mesmo? Afinal, não escapamos de nada, colocamos os fones de ouvido, e cada um com sua música experiência o mesmo isolamento que o morto em seu silêncio – o portal entre os mundos não se abre, e vivemos con(finados).

Mas há uma música contínua capaz de incomodar as profundezas de nossas vísceras, e um banquete de comidas exóticas de todos os tempos… e todos são convidados a deleitar-se, basta voltar os ouvidos para além-de-si.

 

Uma resposta to “Amor, a morte e (in)finitude”

  1. Livro Seo said

    Olha, continue com o bom trabalho neste blog!

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