AnjosdeÓrion

Generalidades físico-poético-filosóficas

Orígenes

Posted by Lilian Neves Mise em @2009

GILSON, Étienne. A Filosofia na idade média. Trad. Eduardo Brandão. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 949 p. 49-56 (Col. Paidéia).

– Nascido em 184, no Egito, provavelmente Alexandria, de pai convertido ao cristianismo (seu Pai Leônidas morreu martirizado e ele foi salvo pela mãe1).
– Foi instruído por Clemente de Alexandria e talvez Amônio Sacas (que foi mestre de Plotino).
– Aos 18 anos assumiu a sucessão de Clemente, mas em os massacres praticados pelo Imperador Caracalla obrigaram Orígenes a deixar Alexandria, fugindo para Cesaréia (atual Palestina), onde abriu uma escola e uma biblioteca. 1
– Foi segundo Gilson, um instrutor brilhante e admirado por seus discípulos. Viveu de forma apaixonada suas convicções escolhendo se mutilar para viver como eunuco. (Em sua infância já teria admiração pelo martírio tendo escrito para seu pai quando este estava preso “Toma cuidado para não mudares de propósito”2). Ele mesmo morreu martirizado.
– Resta muito pouco de sua obra, sendo que este pouco precisa ser lido de forma crítica, pois como suas posturas incomodavam a ortodoxia, seus textos muitas vezes foram manipulados para que pudessem ser aceitos.
– Do que foi conservado, são de interesse filosófico principalmente a Refutação de Celso (Contra Celsum) e o tratado Dos Princípios (Péri Arkhôn)
– O tratado Dos Princípios
> se dirige a duas classes de leitores: os que aceitando a fé desejam aprofundar e os que heréticos/filósofos/inimigos da fé.
> Trata dos princípios da fé cristã: Deus, o mundo, o homem, a revelação.
– Contra Celsum
> Ao se dirigir aos que são fiéis ele assume o que Gilson chama de aristocratismo espiritual (Gilson, pg 51), pois embora todos aceitem a palavra de Cristo, nem sempre há acordo quanto ao sentido, Gilson coloca como exemplo uma citação de Orígenes em Contra Celsum onde ele faz uma distinção entre os fiéis baseada em São Paulo:
1 – cristãos mais perfeitos ainda; os que possuem o carisma da “sabedoria” divina (sentido espiritual), esses por contemplação superior (theôria) já discernem na própria lei divina a sombra da beatitude vindora.
2 – cristãos mais perfeitos; os que tem “conhecimento”,”gnose” (sentido alegórico)
3 – Simples fiéis; os que tem “fé” (sentido histórico).
> Assim como o homem se compõem de corpo, alma e espírito, a Igreja possui então estes três tipos de fiéis, respectivamente simples fiéis, cristãos mais perfeitos, cristãos mais perfeitos ainda.
– Para Orígenes Deus é simples, inefável e perfeito. Sua natureza é imutável e imaterial. Por superar o que é da ordem da matéria e do espírito, não podemos nos representar o que ele é (estamos limitados no corpo).
– A questão da unidade divina (Pai, verbo, Espírito Santo) é aceita por Orígenes, o problema se volta para as relações onde ele vê a subordinação Verbo (por exemplo na criação) e Espírito Santo ao Pai.
(“… Deus sempre foi Pai, e sempre teve o Filho unigênito, que, conforme tudo o que expusemos acima, é chamado também de sabedoria (…) nesta sabedoria que sempre estava com o Pai, estava sempre contida, preordenada sob a forma de idéias, a criação, de modo que não houve momento em que a idéia daquilo que teria sido criado não estivesse na sabedoria…”3)
> O filho, Cristo, é o próprio Verbo que adentra a carne sem se corromper.
– Deus cria o mundo do nada, mas ao mesmo tempo não poderia ter ficado ocioso então o mundo é desde sempre, eternamente produzido (a descrição do gênesis é literal e só vale para o nosso mundo, houveram outros antes e haverão outros depois deste). A eternidade no tempo se contrapõe a uma limitação no espaço, pois a criação divina é feita em números e medidas definidas.
– O mundo é uma manifestação do Verbo, este por conhecer tudo o que é o Pai tem conhecimento para criar outros verbos. Essas são livres tanto para se apegar com mais ou menos força, é dessa liberdade que temos a história do mundo.
– Para Orígenes, é desses graus de fidelidade, que foi escolhido livremente, que temos as hierarquias dos espíritos que povoam o universo. O homem encontra-se aprisionado no corpo (como em Platão), devido sua escolha mas com esforço podem recuperar sua condição primitiva (de puros espíritos). Ele encontra na palavra psykhé a raiz que significa frio psykhon, assim a alma seria um espírito resfriado, e o esforço seria para encontrar a luz e calor primitivos.
– Talvez Orígenes tenha defendido a passagem de um corpo humano ao corpo animal(como na metempsicose), mas não existe texto para confirmar tal tese.
– Quanto a origem da alma, ele deixa em aberto duas opções: transmissão pelos pais ou introdução do exterior.
> Ao deixar em aberto ele assume que existem assuntos incertos que se opõe as verdades universais.
– A imaterialidade da alma é certa pelo fato dela ser capaz do conhecimento intelectual, que é imaterial. É pela dialética, do conhecimento das coisas sensíveis ao conhecimento das coisas intelectuais e morais que a alma se eleva.
– O livre-arbítrio que foi a causa da queda também é a ferramenta de reabilitação do homem. Os seres animados oposto aos inanimados como a pedra, possuem o principio de crescimento em si, o homem se distingue dos animais por possuir a razão capaz de criticas as imagens e sensações. O homem é ele mesmo a causa da decisão.
– Desta forma, a liberdade que foi ocasião do mal, é também condição para o bem. A alma em queda no corpo, não perdeu toda a lembrança, por isso ela possui aptidão para preferir o bem, que é a raiz da reabilitação. A alma sendo imagem e semelhança de Deus pode conhecê-lo conhecendo a si mesma. Pela purificação e pela ascese ela recupera a parte da semelhança divina perdida.
– Cristo é a única alma que desceu semelhante ao divino ao corpo (a alma de Cristo é o verbo encarnado), ele coloca sua alma em resgate para redimir do Demônio os direitos que este possui sobre o homem em consequência do pecado. Esse sacrifício é uma graça necessária para a reabilitação, mas é necessária a escolha do homem. Cristo não salva apenas os homens, mas os homens e de certa forma o universo inteiro.
– Gilson comenta que a diferença entre a cosmogonia gnóstica e a de Orígenes é a postura mais otimista (não há a figura do demiurgo inferior e da matéria ruim). Em Orígenes a matéria pode ser um lugar ruim para o espírito se reabilitar, mas é nela também que se apóia o processo da ascese. Em Orígenes, Deus limita o mal pela destruição em um dilúvio ou de água ou fogo; e então voltando a serem espíritos puros os justos se tornam anjos e os maus decaem ao nível dos demônios. Tudo fica submetido a Cristo e por ele, Deus seu Pai, restabele-se a ordem primitiva. E assim Deus cria mundos cujos destinos dependem das decisões das criaturas.
– Segundo Gilson, é dado a entender nos textos de Orígenes que os seres criados habitam, com permanecias variáveis esses sucessivos mundos criados, ou seja retornem em outros corpos de acordo com seu nível hierárquico. Assim o trabalho de Cristo também recomeça, sem nunca acabar nos sucessíveis mundos. Aqui Orígenes também deixa em aberto duas possibilidades: a de uma evolução gradual a cada mundo criado até a eliminação do mal (a que mais o agrada), ou se é possível crer que restarão demônios e danados por toda eternidade.
– Gilson nos fala que estes são apenas alguns pontos da vasta doutrina de Orígenes, e que representa a versão Cristã de uma concepção de universo que pode ser encontrada, por exemplo, nas Enéadas de Plotino. Ele nos conta que esse influente padre também foi controverso por suas teses audaciosas, Teófilo de Alexandria teria reunido um concílio onde foi condenada sua obra. Por outro lado teve entusiastas que retificaram e souberam admirar sua obra.

Bibliografia

GILSON, Étienne. A Filosofia na idade média. Trad. Eduardo Brandão. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 949 p. (Col. Paidéia).

Outras obras consultadas:

1 Verbete: Orígenes. PUC. Disponível em: . Acesso em: 24 fev. 2009.
2 NUNES, Ruy Afonso da Costa. História da educação na antiguidade cristã. Texas: Pedagógica e Universitária, 1978. Disponível parcialmente em: . Acesso em: 24 fev. 2009. pg. 123. [apenas consultei se a frase citada constava no livro]
3 Orígenes. Os princípios, livro I, 4, 4-5. Disponível em: . Acesso em: 24 fev. 2009.

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