AnjosdeÓrion

Generalidades físico-poético-filosóficas

Odisséia e a virtude de Odisseu (sobre o sal)

Posted by Lilian Neves Mise em @2008

A Odisséia é uma continuação da Ilíada, não apenas linear no tempo (pois narra a volta de Odisseu para Ítaca, após a guerra de Tróia), mas de amadurecimento das paixões. Em ambos os relatos as virtudes do corpo, como a força e destreza física, e do espírito como a inteligência e a oratória são lembrados, cantados e exaltados. Mas, na Odisséia o que sobressai não é a força física, e sim a astúcia e prudência. Assim podemos dizer que nessa obra se abre espaço para heróis sem experiência nas armas de metal: seja a sensata esposa de Odisseu, Penélope e seu ajuizado filho Telêmaco; sejam os servos como porcariço Eumeu e fiel ama Euricléia.

Odisseu, em sua aventura, apesar de muitas conquistas parece nada conseguir manter. Quando chega ao país dos feácios, só chega por que se despiu de tudo, a única coisa que carrega é seu corpo e a necessidade: “Assim, apesar da nudez, compelido pela necessidade, partiu Odisseu ao encontro das donzelas de ricas tranças.” (HOMERO, 2006, pg.74) Nesse momento ele experimenta ser bem recebido como um forasteiro, um mendigo, alguém que nada tem a dar em troca, que está sozinho. É nesse estado de miséria, que ele começa a rememorar suas aventuras, compartilhando com o Rei dos fenácios.

O que prende Odisseu? O que impede ele de chegar em casa? Em sua rememoração ele conta que visitou o Hades, a morada dos mortos, quando possuía no coração essas questões, chegando lá ele encontra um companheiro que acabara de morrer de morte estúpida: por causa da embriaguez havia caído de uma escada, Odisseu por estar com pressa sequer havia prateado e sepultado o infeliz companheiro. Outro que lá encontra é Aquiles, o herói da guerra que morreu cercado de glória, este confessa para Odisseu que preferia estar vivo “Ah! não tentes consolar-me da morte, glorioso Odisseu; eu preferiria lavrar a terra a serviço de outrem, de um amo pobre, de subsistência minguada, a reinar sobre as sombras de todos os extintos.” (HOMERO, 2006, pg. 137). Ambos talvez sinalizem para Odisseu que o caminho para a volta de casa não está se deixar levar pelas paixões a ponto delas colocarem em risco a vida. Viver vale a pena, e nenhuma conquista ou prazer é bem vindo se coloca em risco a sua existência, nem o vinho, nem mesmo a honra.

Mas é Tirésias, sábio cego que habita o Hades, que revela o que adia a chegada de Odisseu – é a imprudência. Em sua aventura no país dos ciclopes, Odisseu havia usado de sua astúcia para ferir o ciclope Polifermo, filho do deus Poseidon, se sua maldade e crueldade podem encontrar alguma justificativa na luta pela sobrevivência, a imprudência está no orgulho de ter vencido e assim revelado seu verdadeiro nome, o qual Poseidon não esquece. Odisseu já é astuto e prudente, mas é o tempo que irá refinar essas virtudes.

Vemos na rememoração de Odisseu quão demorada é sua viagem, é o tempo que fará Odisseu assimilar a orientação de Tirésias. Odisseu quer experimentar, vemos isso quando ele escolhe escutar o canto das sedutoras sereias, ele deixa seus ouvidos abertos, mas o corpo preso. Ele por si não resiste, quer se entregar ao canto que conduz ao esquecimento e morte e não resistiria se não houvesse companheiros que o prendessem no barco (esses tinham seus ouvidos protegidos com cera).

Então relembra as terras por onde passou, por várias vezes Odisseu perde o rumo de casa por causa de seus imprudentes companheiros. Esses por cobiçarem riquezas ou por se preocupar mais com suas necessidades ficarão pelo caminho. Quando estavam perto de casa, com Ítaca já avistada, os companheiros de Odisseu começam a ambicionar mais riquezas, não querendo chegar de mão vazias. Com ciúmes de Odisseu abrem sua bagagem, mas somente encontram vento, um vento que os leva longe para a sua terra, um vento que ironicamente não deixa seus companheiros chegarem as suas casas de mãos vazias. Outro fator, a fome, essa necessidade do estômago, vai afastar definitivamente os companheiros de Odisseu de sua pátria, eles comem um alimento que não é permitido – as vacas sagradas do deus Hélio – pois não suportam passar por privações, desejam conquistar tudo o que há para ser conquistado. Com essa fome gulosa, por não colocar limites as suas conquistas, por não saber conviver com a restrição, jamais poderão voltar para casa, da mesma forma que um saco furado jamais irá encontrar a satisfação de estar preenchido. Odisseu entende que é humano e, portanto limitado, não pode conquistar tudo. Segue o conselho de Tirésias, assim costura seu saco, controla seu estômago, não toca nas vacas do deus, deixando aberta a passagem para casa.

Ainda depois disso, sobre a ardilosa Calipso, ele conta como ela tentou persuadir-lo por sete anos, prometendo imortalidade e inúmeros prazeres. Embora pareça vacilar na hora de partir em sua jangada, em seu intimo não se permitiu esquecer quem e de onde era – ele era mortal e tinha um lar para onde voltar. É a memória, mais do que os desejos que ali seriam todos preenchidos, que faz o voltar.

Terminada a rememorização junto com o rei dos feácios, Odisseu pode voltar finalmente para Ítaca, mas volta dormindo, volta sem saber que está voltando, e ao chegar a sua terra não reconhece. Odisseu experimenta ser estrangeiro em sua terra, ao contrário de outros heróis ele não chega rodeado de gloria, mas com a aparência de um maltrapilho mendigo. Ele reconhece sua identidade com a deusa Atena, e assim reconhece suas habilidades naturais: ser persuasivo, eloqüente e astuto. Não precisa esbanjar seu verdadeiro tesouro, este ficará guardado na caverna para ser compartilhando com os que também forem virtuosos.

Em sua terra ele não irá usar seus dons para possuir – pois já é sua pátria – mas procura aquilo que é semelhante a ele. Primeiro ele irá observar, testar e descobrir quem permanece fiel na sua ausência. Aqueles que se entregam aos prazeres consomem suas provisões de forma irresponsável, que incomodam sua esposa serão mortos, da mesma forma também os servos infiéis não poderão sobreviver. Ele quer seu lar habitado por virtudes, seja como a do Eumeu, o porqueiro que cuidadosamente administra a propriedade mesmo quando o dono não está, ou Euricléia, a ama que não se engana com a aparência de Odisseu, e que apesar das roupas maltrapilhas o reconhece. A virtuosa Penélope, esposa de Odisseu, não se deixa apenas testar, mas testa se aquele que chega é o real dono do leito que ela dorme, ela testa não por Odisseu estar irreconhecível, mas porque é preciso saber se ele manteve além do corpo, a memória de seu lar.

Se é com astúcia que ele reconhece quem são as pessoas leais, com a violência ele retoma a posse de casa. Depois de por em ordem a casa, então Odisseu finalmente pode ter uma noite tranqüila com Penélope, porém em seguida ele terá que partir, não apenas para visitar Laertes seu pai, que ainda não havia sido avisado da volta de Odisseu, mas para também seguir as orientações de Tirésias que o envia para terras distantes do mar, onde existe um povo que come comida sem sal, a fim de agradar o deus Poiseidon, pai do Polifermo, o ciclope a qual Odisseu havia machucado.

A virtude, na Odisséia, é encontrar a felicidade com o que é necessário, se livrando de todo peso que atrapalhe a viagem. Não é um aprendizado fácil, mesmo perdendo tudo e despido, o mar revoltoso e salgado deixa nosso herói inchado “todas suas carnes tinham inchado e muito mar lhe escorria da boca e do nariz” (HOMERO, 2006, pg 70). Mas se o sal incha, também é ele que movimenta e dá sabor a vida, se foi o excesso que fez ser imprudente com Polifermo, foi a medida certa que faz reconquistar a sua casa. Ao retornar, tendo experimentado a miséria e o sofrimento conhecendo aos desejos do estômago, saberá o significado do bom servidor e assim poderá bem administrar e recuperar sua propriedade. O que passar da medida será barrado pela deusa Atena que sinaliza no final da saga que deseja a paz. Diminuir o sal é prolongar a vida e exercitar a paz, e a ausência do sal é boa morte como prevê Tirésias “Tu mesmo virá a falecer longe do mar; a morte será tão branda (…) em plena prosperidade” (HOMERO, 2006, pg. 129).

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