AnjosdeÓrion

Generalidades físico-poético-filosóficas

As origens do pensamento grego IV-Conclusão [Fichamento]

Posted by Lilian Neves Mise em @2008

[obs: texto elaborado para a disciplina de filosofia antiga no 1 ºsemestre da gradução de filosofia lilianmise@gmail.com]
[obs2: como este foi um dos primeiros fichamentos que elaborei, contém alguns problemas – uma dica para quem for fazer o fichamento  não esquecer de colocar entre aspas as citações relevantes do autor]

Capitulo IV
O universo espiritual da Pólis
1 O aparecimento da pólis (século VIII-VII) marca entre os gregos o surgimento de uma nova forma de vida social e relacionamento entre os homens.

2 A palavra torna-se um instrumento político por excelência. A eficácia do poder que exerce a palavra lembra os “ditos” dos reis, mas trata-se de algo diferente; peithó, a força de persuasão é expressa no debate do contraditório, na discussão, na argumentação; ela supõe um publico ao qual se dirige e que deve decidir como um juiz, essa escolha puramente humana mede a força de persuasão entre discursos, assegurando a vitória de um dos oradores sobre seu adversário.

3 O que antes era decidido por um soberano, agora deve ser submetido à arte da oratória, deve resolver-se na conclusão do debate. Existe relação estreita entre política e logos, este toma consciência de si mesmo, de suas regras e eficácia através de sua função política. A retórica e a sofistica abrem caminho às pesquisas de Aristóteles ao definir uma técnica de persuasão, regras da demonstração e ao pôr uma lógica do verdadeiro, própria do saber teórico, em face a lógica do verossímil ou provável, que preside os debates arriscados.

4 A polis existe na medida em que se distinguiu um domínio público, nos dois sentidos diferentes, mas solidários do termo: um setor de interesse comum, opondo-se aos assuntos privados e práticas abertas, estabelecidas em plena luz do dia, opondo-se a processos secretos.
Há uma exigência de publicidade que leva a apreender progressivamente em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o conjunto das condutas. A passagem de conteúdos (conhecimentos, valores, técnicas mentais) antes de domínio privado para o publico faz não só ser mais garantia de poder como também são expostos a criticas e controvérsias. A lei da polis exige uma prestação de contas, já não importa a força do prestigio pessoal ou religioso, mas sua retidão.

5 A escrita que desde o sec VIII se trata de um saber publico, fornece um meio de uma cultura comum e de divulgação de conhecimentos que antes era reservado. A escrita é um dos elementos da paidéia (educação) grega.

6 Dessa fora é justificado a necessidade de redigir as leis, ao escrevê-las se assegura sua permanência e fixidez. Se antes a dike (deusa da justiça) era dependente da arbitrariedade dos reis, pertencendo a um domínio divino, agora ela se torna próxima ao humano, regra comum a todos, racional e sujeita a discussão, modificável por decreto, mas continua a exprimir uma ordem expressa como sagrada.

7 Os indivíduos ao fazer uso da escrita, esperam não apenas divulgar suas descobertas ou opiniões, mas deseja fazer delas um bem comum da cidade assim como as leis, ela constitui em si mesmo como verdade. Não se trata mais de um segredo reservado, ela sai do circulo sagrado das seitas para ser exposto aos olhos da cidade, isso é reconhecer que ela é por direito acessível a todos.

8 Essa transformação do privado ao publico se reflete na esfera dos antigos sacerdócios, os ritos e símbolos que antes era reservados a um grupo vão para a morada publica, nesse espaço impessoal perdem seu caráter secreto, sua virtude de símbolo eficaz, se tornam imagem com a única função de serem vistos. O que era antes sagrado e poderoso se torna sob o olhar da cidade “ensinamentos sobre os deuses”, “verdades” que os Sábios vão debater.

9 Essa passagem do privado ao publico se faz por etapas e enfrentando resistências, algumas cidades colocam sua salvação na posse de relíquias secretas que só magistrados qualificados podem conhecer por ocasião de posse de seu cargo. O racionalismo político que preside às instituições da cidade se opõe certamente aos antigos processos religiosos do governo, mas sem por isso excluí-los de maneira radical.

10 A religião se desenvolve as margens da cidade e ao lado do domínio publico, surgem às seitas, confrarias, mistérios que são grupos fechados e hierarquizados de pessoas selecionadas, mas contrariamente as iniciações antigas que conferiam poder, essa iniciação não traz senão uma transformação “espiritual” sem repercussão política.

11 A iniciação não se restringia as condições de nascimento ou de classe, apesar da democratização do privilégio religioso, ele não se coloca em publicidade, mas define o mistério como uma verdade inacessível a vias normais. O segredo toma uma significação de  salvação pessoal visando transformar o individuo independente da ordem social, a realizar nele uma espécie de novo nascimento que o destaque do estatuto comum e o faça penetrar num plano de vida diferente.

12 Os ensinamentos da Sabedoria, como as revelações dos mistérios (das seitas), pretendem transformar o homem no íntimo, fazer dele quase um deus, um theios anér (?), que se coloca à margem da comunidade. A sabedoria constitui-se assim numa espécie de contradição em que se exprime sua natureza paradoxal:entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte. A sophia e philosofia substituem as iniciações tradicionais por outras provas: uma regra de vida, um caminho de ascese, uma via de pesquisa que, ao lado de técnicas de discussão e argumentação, ou dos novos instrumentos mentais como a matemática, conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias, exercícios espirituais de concentração, de êxtase, de separação da alma e do corpo.

13 A filosofia nasce em posição ambígua entre seus métodos e inspiração; flutua entre o espírito de segredo próprio das seitas e a publicidade do debate do contraditório que caracteriza a atividade política. Dessa ambigüidade a filosofia talvez jamais tenha se libertado totalmente, ora o filósofo afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado, ora ele se retirará do mundo para recolher-se numa sabedoria puramente privada, buscando sua salvação no conhecimento e na contemplação.

14 Aos dois aspectos (prestigio da palavra e desenvolvimento das práticas publicas), outro traço se acrescenta na formação da polis, é a semelhança entre os homens que compõem a cidade por mais diferentes que sejam sua origem, classe ou gênero. Os cidadãos se concebem no plano político, no interior de um sistema cujo a lei é o equilíbrio e a norma igualdade. No século VI surge o conceito de isonomia que é a igual participação no poder, o que traduz aspirações comunitárias, se opondo ao poder absoluto de um só. A exigência de isonomia enraíza-se numa tradição igualitária muito antiga, corresponde a certas atitudes psicológicas dos hippei (nobreza militar) que estabelece, pela primeira vez, uma equivalência entre a qualificação guerreira e o direito de participar nos negócios públicos. Na polis o estado de soldado coincide com o de cidadão.

15 A inserção do hoplita, formado por pequenos proprietários livres que podiam fazer despesa de seu pesado armamento, na demos provoca uma mudança ética do guerreiro, diferente dos hippeus para o qual contava a façanha individua, o hoplita deve recusar a tentação de uma proeza individual, ele foi treinado para estar em equipe e manter o seu posto, deve possuir domínio de si e se esforçar por seguir uma disciplina comum. A falange faz do hoplita como a cidade faz do cidadão, uma unidade permutável, um elemento semelhante a todos os outros, e cujo aristéia, o valor individual, não deve jamais se manifestar senão no quadro imposto pela manobra em conjunto, pela coesão do grupo, pelo efeito de massa.

16 A rejeição pela glória particular se dá não só na esfera da guerra, engloba as atitudes tradicionais da aristocracia, a ostentação da riqueza, a suntuosidade dos lutos, manifestações excessivas típica das mulheres, ou o comportamento demasiado seguro da juventude nobre.

17 Essas práticas são rejeitadas por evidenciar as desigualdades sociais e o sentimento de distância entre os indivíduos, alimenta a inveja pondo em risco o equilíbrio da cidade. O que se busca é a moderação que faça aproximar os cidadãos como membros de uma só família.

18 Já em Esparta o fator militar é o que mais parece influenciar. Esparta se dedica completamente a guerra, repudia a riqueza, se fecha ao intercâmbio estrangeiro, proíbe o uso de metais preciosos, negligencia as letras e a arte.

19 Algumas características tornam Esparta adiantada para seu tempo; vida social que impõe a todos um mesmo regime de austeridade, que codifica até a maneira como as casas devem ser construídas, e que institui a prática das sissitias (refeições comuns). A gerousia (conselho dos anciãos composto de 30 membros, incluindo os dois reis um de cada família aristocrática) efetua um papel de contrapeso entre a assembléia popular e a autoridade real.

20 Em Esparta todos que tendo recebido devidamente o treinamento militar podem se encontrar no mesmo plano que os reis. Não é mais o soberano que tem o poder de ordenador, mas é ao contrário a ordem que detém poder de todos os indivíduos. A arché está relacionada a lei.

21  A transformação do Estado se dá mais nos combates que nas discussões, a palavra não será como em Atena o instrumento político, dessa forma eles não conhece a pheitos, permanecendo com as leis oraculares ao qual se submetem sem discussão e que se recusa a publicidade e a escrita. Dessa forma não serão eles a explicitar em todas as suas conseqüências as noções morais e políticas que eles, entre os primeiros, terão encarnado em suas instituições.

Capitulo V
A crise da cidade. Os primeiros sábios.

1 Aristóteles diz “…dirigiram seus olhares para a organização da Polis, inventaram leis e todos os vínculos que reúnem as partes de uma cidade; a essa invenção nomearam-na Sabedoria, é desta sabedoria que formam providos os Sete Sábios, que precisamente inventaram as virtudes do cidadão.”

2 Os Sete Sábios seriam figuras mais ou menos míticas da qual podemos aproximar alguns personagens (Tales, Periandro, Sólon, Epimênides), que levam a compreender um momento de crise (final século VII e se desenvolve no século VI).

3 As conseqüências dessa crise serão não só as reformas (Epimênides, Sólon, Pítaco, Periandro). Mas também num campo intelectual  a elaboração de uma nova ética grega. A origem dessa crise é de ordem econômica tendo em sua origem uma efervescência religiosa e social, mas que nas condições próprias à cidade leva a uma reflexão moral e política, de caráter laico.

4 Um fenômeno de transformação econômica foi a retomada e desenvolvimento dos contatos com o oriente. Esse alargamento do horizonte marítimo responde a exigência que o desenvolvimento demográfico dispõe o problema dos cereais de maneira tão mais ampla que a agricultura helênica tende  doravante a favorecer as culturas mais lucrativas, como a vinha e a oliveira, cujos produtos podem ser exportados e trocados. A partir do século VIII abrem-se novas fontes de abastecimento, de terras, alimentos e metais.

5 A questão agrária vai ser o principal problemas desse período. A concentração da propriedade rural na mão de poucos, a ostentação de riqueza pela aristocracia grega, o aumento da importância social da classe dos artesãos expressam a mudança de estrutura social desse período.

6 Essas mudanças não se limitavam ao mundo grego, a cidades fenícias conheceram transformações semelhantes. O que diferencia é a reação dos grupos que na Grécia vai surgir em forma de fixar um limite a ambição através da dike que irá surgir no papel do Mago, do Tirano, do nomótema. É ela que deve estabelecer entre os cidadãos um justo equilíbrio e garantir a eunomia, formando uma cidade unida.

7 Uma expressão do novo espírito que se instala pode ser visto em relação às leis e o direito. O assassinato deixa de ser algo privativo para se tornar publico sendo que o assassino passa a ser visto como um elemento de impureza da cidade. Esta atitude está ligada ao despertar religioso pelo crescimento do dionisismo e crescimento de seitas como o orfismo, que trazem idéias como castigo no Hades, ciclo das almas, etc. Epimênides irá regular o rito, ordenando a vida social, reconciliando e unificando a cidade.

8 Nesse momento, conforme Aristóteles, o religioso, o jurídico e o social acham-se associados em um mesmo esforço de renovação, como uma família ampliada. Os legisladores querem agir preventivamente ao cantar o criminoso como um possesso por um mau daimon.

9 Carondas e Epimênides despertam nos cidadãos o sentimento de irmandade através ilustração da refeição em comunhão, essa irmandade se expressa na evolução do termo assassino que primeiramente se referia a um assassino de um parente, mas que em seguida irá se referir a um criminoso a vista de todos os seus concidadãos. Sólon estende esse entendimento não apenas para crimes de sangue, mas para outros delitos dando a cada um o direito de intervir em favor de quem quer que seja lesado, sem ser pessoalmente sua vítima.

10 Vários personagens ligados as seitas emergentes, como os pitágóricos se acham ligados aos legisladores e peritos.

11 Dessa forma o começo do direito se dá em certo clima religioso, o movimento místico corresponde a uma exigência comunitária mais exigente. No entanto essa aspiração ao chegar ao meio publica vai se laicizar.

12-13 O advento do direito realiza uma mutação intelectual. As noções de prova, testemunho e julgamento mudam completamente de sentido, se no processo arcaico o processo estava ligado a uma formula ritual e o juiz atuava como puro árbrito que verificava e declarava a vitória ao termo pela prova de força, na cidade o juiz é um ser impessoal que representa a comunidade e não se condiciona mais ao juramento solidário, mas busca a verdade através do relato dos fatos elaborado uma noção de verdade objetiva que era ignorada no período anterior.

Capítulo VI
A organização do cosmos humano

1 A efervescência religiosa contribui não apenas para o nascimento do direito, mas trouxe também uma reflexão moral, a areté dentro dos grupos religiosos se opõe a imagem da virtude aristocrática que era ligada ao luxo, nascimento e valor no combate. A nova areté é resultante de uma disciplina dura e severa, um controle vigilante sobre si para escapar as tentações do prazer.

2 A condenação da riqueza visa suas conseqüências sociais e os males que causam na sociedade. Percebe-se na riqueza que ela não tem por outro objeto senão satisfazer a si mesma, ela possui uma raiz viciada, o desejo de ter mais do que os outros, mais do que sua parte, toda a parte.

3 A resposta é a busca pela temperança que se desenvolve na classe média burguesa que desempenha o papel mediador entre a minoria rica que tudo quer conservar e a maioria pobre que tudo deseja obter. Essa distribuição equilibrada impõe limites aos que tem ambição. Sólon entra como um marco ao fixar os limites entre essas duas facções. Ao redigir leis iguais e fixar para cada um uma justiça direta. Sólon expressa um racionalismo político ao negar que não há mais a imagem do bom Rei regulamentando a justiça, mas que ela é natural e por si mesma regulamentada, e que é o homem por sua sede de riqueza que causa a desordem.

4 Dessa forma ele traz a elaboração da justiça e moderação para o plano terreno, e ela irá para as praças para serem discutidas.

5 Antes de ser reinterpretadas pelos Sábios e aplicada na política o conceito de moderação já parecia ter pertencido aos mitos e ter sido absorvido pelas seitas, dentro dessas o ritual é utilizado como cura através do jogo de contrastes impureza-purificação, possesão-cura, loucura-saúde. A moderação vista como contrária a impureza e loucura, é dentro das seitas atingida pelas práticas ascéticas.

6 A pistis (confiança) se liga a sophrosye domínio de si, esses elementos saem das seitas para a cidade. Na alma da cidade é à força da pistis que os elementos inferiores se deixam persuadir.

7 O que diferencia esses elementos dentro das seitas e na cidade é o sentido, enquanto uma se orienta para a salvação do individuo na outra busca a salvação da cidade.

8 Já em Esparta este auto-domínio é algo imposto, a dignidade do comportamento tem uma função institucional: o cidadão deve dominar suas paixões, emoções e instintos. O Papel dos sábios é expressar esses valores em seus poemas e máximas, elaborando uma ética que permite instaurar a ordem do mundo na cidade.

9 Para entender como esses conceitos se inseriram na vida política é preciso referir-se as reformas constitucionais de Sólon. O “igual” de Sólon é geométrico e não aritmético, não há direito igual a todas as magistraturas nem direito igual à propriedade, o que se torna normatizado são as leis e o acesso aos tribunais. Antes era o orgulho e a violência que regulavam as relações sociais. O nomóteta (legislador) e as leis que ele promulga são em si a expressão dessa vontade mediana, dessa linha média proporcional que dará a cidade o seu ponto de equilíbrio.

10 O pensamento moral e a reflexão política se desenvolve por meio da razão que busca substituir às relações de força buscando a regulamentação pela medida e assim igualar as relações sociais.

11 Essa mudanças seguem o principio da vantagem recíproca como nos contratos, desse modo, diz Sólon, é possível que ela seja seguida por todas as classes.

12  Nesse quadro surge a moeda, emitida e garantida pela Cidade, esta vai orientar uma não só uma transformação de sentido para o mercantilismo, antes ela representa um instrumento na mão dos legisladores que podem controlar a distribuição da riqueza tornando-a não bem de grupos ou indivíduos mas da Cidade. No plano intelectual existe uma mudança de valores, se antes o valor era afetivo e de implicações religiosas, vai se tornar abstrato, a moeda é um artifício racional que permite  uma medida comum igualando assim o intercâmbio como relação social.

13 A polêmica da isonomia é expressa tanto pela corrente aristocrática quanto democrática. Para a aristocracia, a igualdade se pautaria em relações geométricas harmônicas como na escala musical 2/1;3/2;4/3. A prática dos intercâmbios comerciais e suas regulamentações trouxeram, segundo Arquitas, a noção de medida e proporção nas relações sociais, “graças a isso os pobres recebem dos poderosos, e os ricos dão aos necessitados, pois tem uns e outros a pisitis que terão por esse meio a isotes (igualdade).

14 Nesso percebe-se que a idéia de contrato propõe não a noção de domínio e subversão, mas de reciprocidade e reversibilidade. Para os partidários da eunomia a igualdade é introduzida nas relações sociais graças a uma conversão moral da elite, esta por generosidade dá aos pobres, mantendo eles na posição inferior que convém, sem haver injustiça, nesse caso a igualdade realizada permanece proporcional ao mérito.

15 A corrente democrática considera o igual para todos os aspectos da vida publica sendo o 1/1 a única  medida justa, é a busca de participação de todos na arqué. É nesse sentido que surgem as reformas de Clístenes.

16 No período anterior a Clístenes houve três facções que revoltadas umas com as outras na disputa do poder, cada uma se liga a diferentes gêneros de vida, estatuto social e orientação política: os pedíon ,homens da planície, ou seja, homens da cidade ligados as terras mais ricas, os aristocratas; os parálios, que povoam o litoral marítimo é a nova camada social que atua como moderador evitando a vitória dos extremos e os diácrios, que são os homens da montanha, ou seja, os que estão na periferia e que ainda não estão integrados no quadro das cidade.

17 Clístenes para resolver esse conflito funda a Pólis sobre uma base nova,no lugar das tribos jônicas que formam o local ele cria um sistema de dez tribos que agrupa esses três grupos, cada uma das tribos criadas possui em seu interior a amalgama entre os pedion, parálios e diácrios.

18 Essa organização responde ao desejo de igualdade e se apóia em uma divisão artificial do calendário em 10 períodos de 37 ou 38 dias onde cada tribo preside por um desses períodos.

[obs: texto elaborado para a disciplina de filosofia antiga no 1 ºsemestre da gradução de filosofia lilianmise@gmail.com]

Capítulo VII
Cosmogonias e mitos de soberania

1 O advento da filosofia data do século VI, na Mileto Jônica que com Tales, Anaximandro, Anaxímenes inauguram um novo modo de reflexão da natureza através de uma investigação sistematizada e desinteressada. Para estes os homens, a divindade, o mundo formam um universo unificado, homogêneo. Para o pensamento mítico a experiência cotidiana se esclarecia e adquiria sentido em relação aos atos dos Deuses praticados na origem, inversamente, no pensamento jônico é o cotidiano que torna a origem inteligível, fornecendo modelos para compreender como o mundo se formou e ordenou.

2 Burnet declara que essa revolução intelectual se dá de forma milagrosa e desvinculada de qualquer concepção mítica, e que teria aberto o caminho o qual a ciência só teve que seguir.

3 A posição de Burnet se opõe a de Cornford, segundo o qual a filosofia jônica está mais próxima dos mitos do que da ciência, ignora em particular a experimentação. Não se trata de uma reflexão ingênua a respeito da natureza, e transpõe para uma forma laica a concepção de mundo elaborada pela religião. Não busca como a ciência as leis da natureza, mas procura responder, como nos mitos, como a ordem foi estabelecida, como o caos pode surgir da ordem. Cornford aponta semelhanças entre a Teogonia de Hedíodo e a filosofia de Anaximandro. Enquanto um fala de gerações divinas o outro descreve processos naturais evitando sentidos confusos que poderiam se exprimir em termos de união sexual. Entretanto apesar dessa diferença a organização geral do pensamento permanece a mesma. Põem-se igualmente na origem um estado de indistinção e dessa unidade primordial surge por emerge por segregação e diferenciação progressivas os pares de opostos.

4 Observa-se essa simetria em minúcias, por exemplo, em Anaximandro sobre a formação do apeiron se percebe uma racionalização do tema geração sexual e hierogamia.

5 Apesar dessas analogias se percebe descontinuidade no vocabulário e na atitude intelectual, existe uma libertação do ritual, do culto, da religião.

6 Essa dessacralização do saber não é um fenômeno isolado mas se liga ao universo espiritual que forma a pólis. Dessa forma os primeiros filósofos não só se inspiraram nos mitos, mas também para construir cosmologias novas usaram noções que o pensamento político e moral tinham elaborado.

7 As teogonias e cosmogonias gregas são mitos de soberania, exaltam o poder de um deus que reina sobre o universo, relatando seu nascimento, lutas e triunfo no domínio natural, social, ritual, a ordem é produto desse deus soberano. A Teogonia de Hesíodo por exemplo exalta a glória de Zeus, a vitória de Zeus em cada vez é a criação do mundo, sua vitória garante que o chaos não irá ressurgir.

8 Cornford aponta simetrias entre a mitologia grega e a babilônica na estrutura de soberania, de um deus que derrota o caos e permite a ordenação do mundo (Luta do Tifeu X Tiamat/Marduk).

9 Essa semelhanças junto com descobertas recentes apontam para a confirmação da hipótese de empréstimo. Dessa forma é possível precisar a problemática da influência oriental nos mitos gregos de gênese.

10 Nas teogonias orientais como nas da Grécia existe uma relação estreita entre o mito e o ritual que é o acompanhamento oral. O monarca reafirma o seu poder ao incorporar o mito e ao representar a nova criação da ordem cósmica, social e das estações. Era a virtuosidade do Rei que garantia, após um período de crise, a organização do mundo renovada e mantida por um novo ciclo temporal.

11 Dessa forma se percebe que o Soberano não só interferia na esfera social, mas ele também era o responsável pelos fenômenos naturais, dessa forma não existia a concepção de uma organização autônoma imanente ao universo.

12 Algumas cosmogonias na Grécia também são elaboradas nesse sentido, como a de Ferecides que transforma o nome dos deuses mitológicos em jogos de palavras etimológicas sugerindo seu aspecto de forças naturais.

13 A gênese no mito não é um problema tão importante quanto o que traz ordem ao mundo, ele explicita o que é primeiro do ponto de vista do poder e isso se distingue do que é o principio do mundo, ou seja está ligado a idéia de dynasteia. A arqué que surge na filosofia não tem vínculo com os mitos, quando Anaximandro usa esse termo é expresso não só uma rejeição pelo vocábulo monárquico próprio do mito, mas traduzirá uma vontade de aproximar o que os teólogos separavam o inicio cronológico, aquilo a partir de que as coisas se formam e aquilo que governa o universo. A lei que rege o universo deveria já estar presente no elemento original do qual o mundo surgiu.

14 Imagem do mundo pelas teogonias Gregas:
15 O universo é uma hierarquia de poderes. Análogo a sociedade humana é constituída por relações de força, de escalas de precedência, de autoridade, de vínculos de domínio e de submissão.
16 A ordem é instituída dramaticamente por um agente.
17 Esse agente é o superior monarca que mantém o equilíbrio entre as Potências, determinando suas limitações e atribuições.

18  Esses três traços dão a narrativa mítica sua coerência e lógica própria. Com o desmoronamento da realeza micênica, os ritos reais perdem sentido, então o mito se vê desligado do ritual, adquirindo um aspecto autônomo. Servirá em certos aspectos como base para o filósofo. Já em Hesíodo se nota alguns sinais dessa dissociação, porém ela afinal não se realiza, persiste a questão do gênero e falta ordem como isonomia e simetria.

[obs: texto elaborado para a disciplina de filosofia antiga no 1 ºsemestre da gradução de filosofia lilianmise@gmail.com]

Capitulo VIII
A nova imagem do mundo

1 A amplitude da revolução intelectual produzida pelos milésios pode ser melhor percebida na obra de Anaximandro, ele não apenas introduz em seu vocabulário o termo arché como escreve em prosa, ao contrário do estilo poético das teogonias, instalando um novo gênero literário próprio dos perí physeos (filósofos da natureza).

2 Os milésios em muito aprenderam com os babilônios, a retomada dos contatos com o oriente influencia fortemente o desenvolvimento da ciência, como a astronomia, mas diferentemente da babilônica a ciência grega se desvincula dos aspectos religiosos e busca se desenvolver pela geometria, criam assim mapas e modelos do universo.

3 Anaximandro localiza a Terra como imóvel no centro do universo, se utilizando para isso de relações geométricas sem nenhum vinculo com o mito e justifica a não necessidade de apoio por ela estar a igual distância de todos os pontos da esfera celeste, ao saber que todos os raios de um circulo são iguais ele justifica, de forma laica, a não necessidade de apoio para a terra.

4 Essa noção de que a Terra não precisa de apoios reflete o vocabulário político corrente, nenhum elemento sustenta ou subjuga outro, a supremacia pertence exclusivamente a uma lei de equilíbrio e reciprocidade.

5 Anaximandro escolhe atribuir a arché algo que não seja dos elementos, ao escolher o ápeiron ele exclui a possibilidade de um elemento possuir a arqué e subjugar as demais, dessa forma garante a organização igualitária.

6 Esse equilíbrio não é estático, mas cheio de conflitos onde um elemento se apodera do poder para depois recuar, se ligando no universo, as estações, no corpo do homem em movimentos simétricos e reversíveis.

7 Apesar de sua multiplicidade e diversidade as potências elementares em constante conflito se submetem a uma regra de justiça compensatória que as mantém em um cosmos único.

8 Essa nova imagem do mundo foi colocada claramente por Anaximandro e se torna comum não só ao pensamento filosófico, mas ao pensamento médico que verá a saúde como equilíbrio de poderes (seco-umido, frio-quente, etc), a doença deriva da monarchia de um elemento sobre o outro, pois a dominação exclusiva de um elemento sobre o outro é destrutiva.

9 Essa nova imagem do mundo também aparece na organização do espaço urbano, os primeiros urbanistas são teóricos políticos. O vinculo entre o espaço da cidade e suas instituições irão aparecer mais claramente em Platão e Aristóteles.

10 O novo espaço social está centrado. A ágora coloca todos os indivíduos em posições simétricas, todos que nela penetram são definidos como iguais, é um espaço comum, público, laicizado feito para o debate, à argumentação.

11 Alguns textos sugerem que essa nova configuração espacial da cidade tenha influenciado a orientação geométrica que caracteriza a astronomia grega.

12 É possível traçar uma comparação entre Anaximandro, que afirma a Terra ser fixa e não precisar se sustentar por nada, e não ser dominada por nada, por estar no centro, com o que um texto político de Heródoto que conta sobre Meandro que ao assumir o poder do tirano Polícrates, renuncia por não concordar com o poder sobre os semelhantes e proclama a isonomia.

14 Os valores políticos, geométricos, e fixos do centro, ponto em torno do qual se ordena, interferiu nas concepções filosóficas a respeito da natureza a hestia da ágora poderá designar o fogo central de Filolau.

15 Platão, pela boca de Sócrates irá dizer que “a igualdade geométrica é onipotente entre os deuses e entre os homens” sustentando o vínculo entre o pensamento político e a geometria.

Conclusão

1 O advento da filosofia está intimamente relacionada com o surgimento da polis, de modo que a estrutura racional que se desenvolve é solidária das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega. Não nasce em Mileto a Razão senão uma Razão é construída. Não é a mesma razão experimental da ciência, mas uma Razão ligada à política que é expressa no conceito de animal político de Aristóteles.

2 O declino do mito começa quando os primeiros Sábios começaram a discutir a ordem humana. Esse pensamento marcou a mentalidade grega antiga que considerava a vida publica como algo por excelência humana.

3 Quando nasce em Mileto a filosofia pega por empréstimo esses conceitos político, mas logo adquire autonomia e se desenvolve por conta própria voltando suas questões não para a formação da ordem ,como os primeiros filósofos, mas sobre a natureza do ser e saber e quais são as suas relações. Ela se desenvolve nos instrumentos de relacionamento, na linguagem: política, do reitor do professor. A filosofia, dentro dos seus limites e com suas inovações é filha da cidade.

VERNAT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 17° Rio de Janeiro: Difel, 2008. 144 p.

[obs: texto elaborado para a disciplina de filosofia antiga no 1 ºsemestre da gradução de filosofia lilianmise@gmail.com]

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