AnjosdeÓrion

Generalidades físico-poético-filosóficas

7 – O projeto de Schleiermacher de uma hermenêutica geral

Posted by Lilian Neves Mise em @2010

Pessoal, este aqui é um texto que preparei  para um seminário da disciplina de hermenêutica.

Seminário de Hermenêutica

7 – O projeto de Schleiermacher de uma hermenêutica geral

PARTE 1 – fICHAMENTO DO CAPÍTULO

§1-5: Apresentação do projeto de  Schleiermacher

1 §Objetivo fundamental:  construir uma hermenêutica geral como arte da compreensão” pois “cada disciplina [ex: teológica, jurídica, filológica] tem suas ferramentas teóricas para seus problemas particulares” mas, “há uma unidade fundamental. Os textos exprimem-se numa língua e assim utiliza-se a gramática para encontrar o sentido de uma frase.”
2 § Wolf: acumula problemas hermenêuticos (ex: o problema da tradução, da língua, dificuldade histórica no texto) Ast: Orientação mais filosófica (busca um sistema), mas baseado em idealismo metafísico
Schleiermacher: analisa o ato fundante da hermenêutica: o ato de compreensão, o ato de um ser vivo dotado de sentimento e intuições.
3 § 1799 SCH nega o fenômeno religioso como um ato metafísico, moral ou racional, mas é ligado àquele que vive, age e sente a sua situação de criatura dependente de Deus. Tal pensamento é transportado para a hermenêutica “enquanto relacionada ao ser humano concreto, existente e atuante no processo de compreensão do diálogo”
4 § SCH Arte da exploração: está fora da hermenêutica (falar, expressar, formular e transformar em discurso)
Arte da compreensão: compreender o dito
5 § SHC “Como é que toda ou qualquer expressão lingüística, falada ou escrita é <<compreendida>>?
arte de ouvir: ouvinte recebe meras palavras>advinha seu sentido
Hermenêutica = arte de ouvir = relação de diálogo

§6-9: Círculo hermenêutico

6 § Compreensão é reverso da composição -> começa da expressão já fixa e acabada e recua até a vida mental que a produziu (reconstrução).
Dois momentos da interpretação: gramatical e psicológico (em ambos momentos o principio de reconstrução é o circulo hermenêutico)
7 § Compreender -> comparar com o conhecido
Círculo hermenêutico -> As partes tiram seu sentido do todo e dão sentido ao todo
8 § Há uma contradição lógica no círculo hermenêutico que é ter que captar o todo antes de captar as partes, porém “a lógica não valida totalmente as tarefas da compreensão”.  Há uma espécie de <<salto>>: compreendemos o todo e as partes. Hermenêutica é comparativa e intuitiva.
9 § Compreensão partilhada: presumi-se comunidade de sentido, partilhada por quem fala e quem ouve.
10 § Tanto quem fala como o que ouve devem partilhar a linguagem (meio do discurso) e o tema (matéria do discurso) do seu discurso.

§11-15: Interpretação gramatical e psicológica

11 § 2 momentos da compreensão do discurso: 1º compreensão como algo extraído da linguagem/ 2º como fato no pensamento daquele que fala.
12 § Interpretação gramatical: relação com a língua, tanto na estrutura das frases como nas partes “interatuantes” de uma obra, e também com outras obras do mesmo tipo literário.
De modo igual individualidade do autor e da obra têm que ser vista no contexto dos fatos mais amplos de sua vida, contratando com outras vidas e outras obras.
13 § Reconstruir a experiência mental ≠ buscar as causas (psicanálise)
14 § Processo de reconstrução do pensamento através da expressão lingüística:
abordagem gramatical: método comparativo. Geral>Particular
abordagem psicológica: método comparativo e divinatório
Método divinatório: “nos transformamos no outro de modo a captar diretamente a sua individualidade.””Objetivo último não é <<compreender>> o autor de um ponto de vista psicológico; é antes ter acesso mais pleno àquilo que é significado no texto.
15 § Estilo: revelação psicológica da individualidade do autor “A compreensão total do estilo é todo o objetivo da hermenêutica”.
Talento ± profundo para conhecer individualmente outros seres humanos deve estar combinado com intuição lingüística.

§16-21: Hermenêutica como sistema (do centramento na linguagem ao centramento na subjetividade)

16 § Hermenêutica como sistema: conjunto de observações dispersa> unidade sistematicamente coerente
pressupõe: 1º compreensão opera de acordo com leis que podem ser descobertas, 2º enunciar as leis e princípios a partir dos quais ocorre a compreensão.
17-21 §
1º SCH centrado na linguagem, menos psicológico
Identidade entre pensamento e expressão
“…temos que ter uma compreensão do homem para podermos entender o que ele diz. No entanto, é a partir do seu discurso que chegamos a um conhecimento do homem.”
“Tudo o que se pressupõe em hermenêutica é a linguagem e é também só a linguagem aquilo que encontramos na hermenêutica; o lugar a que pertencem os outros pressupostos objetivos e subjetivos tem que ser encontrado através (ou a partir) da linguagem”
2º SCH
É preciso transcender a linguagem para chegar aos processos internos.
Assume a tarefa de mediar entre o caráter intrínseco da filosofia transcendental especulativa e o caráter extrínseco da ciência positiva e empírica.

§21-28: Críticas e contribuições do projeto de Schleiermacher

21 § Kimmerle e Gadamer: Vão dizer que este 2º SCH se desencaminhara ao abandonar a possibilidade de uma hermenêutica centrada na linguagem, caindo em uma má metafísica. Palmer explica que este desvio se dá não apenas pela metafísica idealista do autor, mas pela hipótese de que a hermenêutica era um processo de reconstrução do processo mental do autor.
Texto é  percebido pela relação com algum processo mental interno ou pela relação com o assunto, tema, a que o texto se refere?
22 § SCH contribuiu para que a hermenêutica deixasse de ser disciplina especifica para se tornar a arte de compreender uma expressão lingüística.
“A Hermenêutica é o modo pelo qual uma criança capta o significado de uma nova palavra”
23 § Constantes da compreensão que em SCH apareciam como
termos científicos, mas tarde foram compreendidos como fatos históricos. // Apreendeu-se uma importância de uma pré-compreensão antes de toda compreensão
24-28 § Palmer comenta que diante dos ganhos da hermenêutica de SCH a questão é determinar de um modo mais adequado o que é o que faz a interpretação, se voltando para o problema lingüístico.
Sendo psicologizar: o esforço para ir além da expressão lingüística, procurando as intenções e processos mentais do seu autor, Palmer embora considere ilegítimo especulações na fundamentadas sobre os processos mentais do autor vê que SCH tem razão em considerar o problema interpretativo como inseparável da arte da compreensão naquele que ouve.
SCH compreensão independente da sua relação com a vida ao contrário de Dilthey e Heidegger
O problema para SCH não era a obscuridade da história, mas a obscuridade do TU
para SCH“…importa compreender o autor, melhor do que ele próprio teria se compreendido” (Gadamer p.299)

PARTE 2 – EXPLICAÇÃO DO CAPÍTULO

Palmer, no capítulo 7 da Hermenêutica, nos apresenta o projeto da hermenêutica geral de Schleiermacher, apresentando seus fundamentos expectativas. Também aborda a questão da abordagem gramatical e psicológica e mostra como a metafísica idealista do autor transformou um primeiro Schleiermacher centrado na linguagem, em um segundo centrado na subjetividade. Por fim ele nos apresenta como Schleiermacher teria influenciado a hermenêutica posterior, seja pelas novidades ou problemas que sugere.

Palmer começa com a seguinte citação de Schleiermacher: “A hermenêutica como arte da compreensão não existe como uma área geral, apenas existe uma pluralidade de hermenêuticas especializadas”[1]. Por meio desta citação Palmer nos apresenta o objetivo fundamental de Schleiermacher: “construir uma hermenêutica geral como arte da compreensão”. Schleiermacher havia percebido que cada disciplina – seja a filologia, a teologia ou a jurídica – possuía suas ferramentas teóricas para seus problemas particulares, mas subjacente a estas diferenças repousa uma unidade fundamental: “todos os textos exprimem-se numa língua e assim utiliza-se da gramática para encontrar o sentido da frase”[2]. Schleiermacher herda de Wolf a preocupação com o fato, a necessidade prática de empatizar com o pensamento alheio para realizar a interpretação e de Ast preocupação filosófica que busca uma sistematização, mas tenta se livrar do acumulo de problemas hermenêuticos do primeiro e do idealismo metafísico do segundo e, além disso, insere um novo elemento que é a analise do ato fundante da hermenêutica, que é a analise do ato de compreensão, o ato de um ser vivo dotado de sentimentos e intuições. Ou seja, a hermenêutica de Schleiermacher se volta ao ser humano concreto, existente e atuante no processo de diálogo. Aqui Palmer nos mostra que esta concepção foi transportada do próprio entendimento que Schleiermacher tinha de fenômeno religioso, sendo que este não era definido de modo moral, racional ou metafísico, mas ligado àquele que vive e sente sua situação de criatura dependente de Deus.

Para Schleiermacher a arte da exploração está fora da hermenêutica, pois esta se liga a criação de um discurso. Ele colocando a questão de como toda a expressão lingüística, escrita ou falada, é compreendida, propõe que a hermenêutica é a arte de ouvir, na qual o ouvinte recebe meras palavras e tenta adivinhar o significado, desta forma a hermenêutica é uma certa forma de diálogo com a expressão lingüística.

Para explicar tal fenômeno, Schleiermacher recorre ao círculo hermenêutico. A compreensão é o inverso da composição, pois parte do já expresso e tenta refazer o caminho da expressão (reconstrução). Neste processo são observados dois momentos: um gramatical e outro psicológico. No círculo hermenêutico vemos que a expressão é compreendida pelas partes, e a parte dá sentido ao todo. Para solucionar esta contradição lógica que aparece no círculo hermenêutico, Schleiermacher nos diz que “a lógica não valida totalmente as tarefas da compreensão”[3]. Há uma espécie de salto onde compreendemos as partes e o todo ao mesmo tempo. Desta forma a hermenêutica é intuitiva. Porém para que tal processo ocorra é necessário uma compreensão compartilhada, ou seja, uma comunidade de sentidos partilhada entre quem fala e quem ouve, desta forma além da intuição, a hermenêutica também é comparativa, pois parte de algo previamente conhecido ou compartilhado.

Como dissemos, para Schleiermacher há dois momentos da interpretação, um gramatical e outro lingüístico. Em ambos momentos atua o princípio do círculo hermenêutico, enquanto no primeiro momento se trata da busca da compreensão do texto enquanto algo tirado da linguagem, no segundo se trata de compreender o discurso como fato no pensamento daquele que fala. No primeiro caso se estuda a expressão em sua relação com a língua, tanto na estrutura das frases como nas partes interatuantes do texto, e também a relação da obra com outras obras equivalentes. Da mesma forma, no segundo caso observamos a vida do autor contrastado com outras vidas e outras obras. Neste segundo caso não se trata de fazer uma psicanálise do autor buscando as causas de seu pensamento, mas pesquisar a subjetividade do autor de modo a evidenciar o sentido do texto. Em ambas as abordagens se utilizam o método comparativo, partindo do conhecido para a compreensão do autor, mas na abordagem psicológica também é necessário o método intuitivo, o “se colocar no lugar do outro de modo a captar diretamente a sua individualidade”[4]. A compreensão do estilo é fundamental para Schleiermacher a realização da tarefa hermenêutica, de modo que para a tarefa hermenêutica é necessário tanto um talento para conhecer individualmente outros seres humanos, como uma intuição lingüística.

Vemos então por estas características que Schleiermacher apresenta a possibilidade de um sistema hermenêutico, ele organiza um conjunto de observações dispersas em uma unidade coerente tendo como pressuposto que a compreensão opera de acordo com leis que podem ser descobertas, e portanto enuncia estas leis e princípios a partir dos quais opera a compreensão. Palmer observa que estes princípios que aparecem em dois momentos, o gramatical e o psicológico, apareceram com forças desiguais na vida do autor. Ele constata que houve um primeiro Schleiermacher mais centrado na linguagem que anunciava:

Tudo o que se pressupõe em hermenêutica é a linguagem e é também só a linguagem aquilo que encontramos na hermenêutica; o lugar a que pertencem os outros pressupostos objetivos e subjetivos tem que ser encontrado através (ou a partir) da linguagem[5]

Mas que em um segundo momento este autor cedeu para um centramento mais psicológico, fato que pode ser melhor compreendido em um comentário de Gadamer sobre a proposta de Schleiermacher “importa compreender o autor, melhor do que ele próprio teria se compreendido”[6]. Neste segundo Schleiermacher importa, de acordo com Palmer, transcender a linguagem para compreender o autor. Palmer justifica que esta transição se dá por Schleiermacher pretender assumir uma tarefa de mediar entre o caráter intrínseco da filosofia transcendental especulativa e o caráter extrínseco da ciência positiva e empírica. Além disso, outro ponto que, de acordo com Kimmerle e Gadamer, desviou Schleiermacher caindo em uma má metafísica, foi não apenas uma metafísica idealista, mas, a hipótese de que a hermenêutica é um processo mental de reconstrução da idéia do autor.

Palmer começa por fechar este capítulo e introduzir o próximo indicando os ganhos e problemas da hermenêutica de Schleiermacher. Um ganho foi a possibilidade de sistematização, que servira de inspiração para Dilthey, por exemplo, e que torna a hermenêutica ciência. A psicologização aparece como um problema enquanto investigação da subjetividade de um autor, Palmer coloca que este também não deixa de ser uma questão relevante se considerarmos que há um envolvimento daquele que ouve na arte da compreensão. Na nota 17 deste capítulo Palmer lembra que “dado que o interprete sente o ser moral de um autor; a sua própria interpretação torna-se uma ato moral”[7], ou seja, um ato criativo já que o interprete põe algo de si na interpretação, fato que perturbaria toda a pretensão sistemática de Schleiermacher. Pensar que não há nenhuma subjetividade envolvida seria dizer que o texto tem identidade real e independente do evento que é compreendê-lo. Por fim Gadamer aponta que para Schleiermacher o problema não era a obscuridade na história, mas a obscuridade no Tu[8], com isto pode-se cair no desprezo pelo elemento histórico, ou ignorar a importância da linguagem na hermenêutica.

Referencias:
__________________________________________

PALMER, Richard. Hermenêutica. Lisboa: Edições 70, 1969. 285 p.

GADAMER, H. G.. Verdade e método I. Petrópolis, Bragança Paulista: Vozes, Ed. Univ. São Francisco, 2007


[1] PALMER, 1969, p. 91

[2] PALMER, 1969, p. 91

[3] PALMER, 1969, p. 94

[4] PALMER, 1969, p. 96

[5] PALMER, 1969, p. 98

[6] GADAMER, 1997, p.299

[7] PALMER, 1969, p. 100

[8] PALMER, 1969, p. 102

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